Dois vícios.
Local desconhecido.
Perto de uma biblioteca.
Outro vício a acrescentar: palavras a preto e branco desenhadas em folhas cinzentas gigantes.
Tragédias e comédias. Até sujar os dedos. Algumas fotografias também. Estas são a cores.
Carro fez um quilómetro sobre carris. Pensei que havia uma saída. Pois claro. Adiante.
Ler as letras gordas, as outras mais pequenas se houver tempo. Reparar nas gralhas. Mais um vício.
Espreitar os classificados. É o que interessa. Oferta. Emprego. Procura. Isto mesmo. Agora o café tem música. And you could've ruled the whole world if you had the chance. Nem de propósito. Gosto. Não gosto. Gosto. Nem sei se é triste, não, não chega a ser. Se mandasse aqui ia mudar o CD agora. Mas gosto do raio da música que me persegue. E não mando em lado nenhum. Só em casa, e até estou perto.
O café ficou frio no meio de tantos pensamentos. O telemóvel tocou até se fartar e foi abaixo de zangado. Deve ter sido. São as maravilhas da tecnologia moderna. Agora estão todos a olhar para mim. Deu-me para desatinar com a máquina curandeira das ausências. Nada de novo. Ao menos ainda há quem ache piada aos meus acessos de loucura puramente controlada.
Ainda não é hoje que o telemóvel se esbarra contra a parede. Deu-me para rir. Menos mal. Vieram oferecer-me um cinzeiro. Por esta hora devo ter ar de quem precisa de um cigarro. Agradeci. Mas não fumo, obrigada. Para a próxima sento-me longe da máquina dos cigarros. Colei a chiclet ao cinzeiro só para ele não se sentir sozinho e estava quase capaz de desfazer um pacotinho de açúcar aos pedaços para entreter os dedos. Mas não. Coitado, ficou com sabor de framboesa. Parece-me bem. Não deve gostar muito de levar com as beatas em cima, digo eu. É mais doce assim. Perfeito. E agora é mais um maço a cair da máquina, a descer directamente para as mãos de outro viciado. Mais um sorriso oferecido e um Olá caído do céu. Mas o que é isto? Aqui diz assim: Oferta – Empregos. Será que li bem? Eu procuro, procuro, procuro. Não será: Oferta – Sorrisos? Também procuro, procuro, procuro. Respondi como manda a boa educação. Fui buscar à gaveta o sorriso mais convincente e ofereci um Olá! Pronto, não custou nada. No local desconhecido, um olá desconhecido. Afinal estas coisas acontecem. Roubaram-me os classificados. E esqueci-me das horas.



