segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

.dois VÍCIOS


Dois vícios.
Local desconhecido.
Perto de uma biblioteca.
Outro vício a acrescentar: palavras a preto e branco desenhadas em folhas cinzentas gigantes.
Tragédias e comédias. Até sujar os dedos. Algumas fotografias também. Estas são a cores.
Carro fez um quilómetro sobre carris. Pensei que havia uma saída. Pois claro. Adiante.
Ler as letras gordas, as outras mais pequenas se houver tempo. Reparar nas gralhas. Mais um vício.
Espreitar os classificados. É o que interessa. Oferta. Emprego. Procura. Isto mesmo. Agora o café tem música. And you could've ruled the whole world if you had the chance. Nem de propósito. Gosto. Não gosto. Gosto. Nem sei se é triste, não, não chega a ser. Se mandasse aqui ia mudar o CD agora. Mas gosto do raio da música que me persegue. E não mando em lado nenhum. Só em casa, e até estou perto.
O café ficou frio no meio de tantos pensamentos. O telemóvel tocou até se fartar e foi abaixo de zangado. Deve ter sido. São as maravilhas da tecnologia moderna. Agora estão todos a olhar para mim. Deu-me para desatinar com a máquina curandeira das ausências. Nada de novo. Ao menos ainda há quem ache piada aos meus acessos de loucura puramente controlada.
Ainda não é hoje que o telemóvel se esbarra contra a parede. Deu-me para rir. Menos mal. Vieram oferecer-me um cinzeiro. Por esta hora devo ter ar de quem precisa de um cigarro. Agradeci. Mas não fumo, obrigada. Para a próxima sento-me longe da máquina dos cigarros. Colei a chiclet ao cinzeiro só para ele não se sentir sozinho e estava quase capaz de desfazer um pacotinho de açúcar aos pedaços para entreter os dedos. Mas não. Coitado, ficou com sabor de framboesa. Parece-me bem. Não deve gostar muito de levar com as beatas em cima, digo eu. É mais doce assim. Perfeito. E agora é mais um maço a cair da máquina, a descer directamente para as mãos de outro viciado. Mais um sorriso oferecido e um Olá caído do céu. Mas o que é isto? Aqui diz assim: Oferta – Empregos. Será que li bem? Eu procuro, procuro, procuro. Não será: Oferta – Sorrisos? Também procuro, procuro, procuro. Respondi como manda a boa educação. Fui buscar à gaveta o sorriso mais convincente e ofereci um Olá! Pronto, não custou nada. No local desconhecido, um olá desconhecido. Afinal estas coisas acontecem. Roubaram-me os classificados. E esqueci-me das horas.

terça-feira, 25 de dezembro de 2007


Sou uma lágrima sofrida, chorada sentida, perdida, espalhada sobre os poucos grãos de areia que são a minha alma, olho-te daqui, deste chão de amarguras, choro-te em pequenas gotículas de mim que não vês passar, arrefeço, desintegrada me evaporo nos céus, onde serei uma nuvem branca, que irá olhar-te de cima e renascer na forma de uma lágrima de chuva, espalhada, esquecida, escondida nos teus olhos onde choro eternamente o Amor que sinto por ti.

domingo, 23 de dezembro de 2007

Ausência


Todos os dias pinto de mil cores e formas as minhas letras, numa busca incessante da verdadeira essência que em mim existe. Inspiro-me nos traços ao acaso que a alma me segreda, quando rompo as paredes frágeis de uma dimensão paralela a esta.
Revejo-me nas palavras que me pingam dos dedos, como o pintor se revê no quadro, quando os seus olhos se tornam pincéis e o seu ser mais profundo se entranha na tela.
Escrevo nas cores que quero pintar a vida, escolho o brilho de um fogo imenso que não me queima nem me cega, cruzo ideias e espalho ilusões.Deitada neste leito de verdades ocultas não desespero nesta tarde cinzenta que me roubou o encanto e me levou a magia. O meu olhar continua sereno, espreito a infinita janela do mundo, vislumbro o fim de mais um dia que me tinge a pele em suaves nuances de ausência.Apática, deixo-me envolver na noite negra que me apaga por momentos, e aqui fico, quieta, perdida na resolução deste passatempo absurdo de saudade.
Nas mãos aguardo um novo amanhecer da alma que me traga de volta os sonhos, me acorde os sentidos, me desperte as emoções e te traga de novo para junto de mim em forma de encantamento.

Preciso de me dar, escrevendo…

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Era para ele ...

Disseram-lhe, um dia, que o mundo andava sempre às voltas. E que depois havia a lua que andava à volta da Terra. A pensar nisso, construiu cenários com lápis de cor, como se cada gesto seu fosse para sempre o desenho de uma criança sem medo de cair. Como se o mundo fosse um lugar bonito. O mesmo mundo que a obrigava a caminhar em círculo, diziam. O relógio derretia e o tempo demorava a passar. Os ponteiros pingavam horas desperdiçadas e risos desinspirados. E ela ia assobiando a poesia quando se lembrava de sair à rua. Às vezes punha o coração para lavar sem reparar na etiqueta só porque ainda trabalhava na construção dos sonhos. Sentava-se no chão e contava todos os sonhos que passavam por ela. Alguns eram mais rápidos do que um aperto no coração, outros pairavam como borboletas. E ela gostava daqueles sonhos que lhe sorriam e aí tirava do bolso todas as palavras, só porque não as queria deixar fugir com o vento.

Por isso, estendeu-lhe um papel amarelo e corou. Disse-lhe que era para ele e que tinha escrito para ele e que gostava dele. E disse tudo muito rápido, para não gaguejar e engoliu palavras e voltou a corar, desta vez ainda mais do que na primeira vez. E ele nada disse, sorriu apenas como nunca tinha sorrido e beijou-a. Porque ela gostava muito dele e encontrou, algures no meio das letras perdidas, as razões que queria ter para se apaixonar. Aí, ela reconheceu o sorriso. E foram essas as palavras que desenhou no seu sonho, letra-a-letra, todos os dias, como se o sol fosse as ondas do mar e as letras fossem desenhadas na areia.

E foi assim que ela caiu numa nuvem de algodão. Deixou-se ir agarrada a uma flor que entretanto lhe ofereceu, depois de lhe terem dito que o mundo andava sempre às voltas, quando o coração tingiu de vermelho as palavras que ela tanto guardou no bolso.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Fuga...


Apagam-se as luzes, no silêncio premeditado, esvoaçam anónimas vibrações de aplausos inúteis e inglórios. Sobre mim, cai o pano da verdade, a alma fica a descoberto revelando a pura nudez da minha essência. Lentamente as emoções e os sentimentos verdadeiros são resgatados da mentira obscura. Recolho-me no exíguo camarim do meu âmago, caracterizo-me de mim, revejo-me no espelho do tempo, e deixo de ser aquilo que quero ser, para ser o que sou. Desenlaço das mãos a inocência que escondo, quando me defendo das falsas luzes da ribalta. Acendo a ternura do meu olhar e experimento a liberdade de rir, chorar e gritar sem guião. Protegida, na cumplicidade da escuridão, solto o pesado ónus da minha existência, desato as amarras que me confinam os movimentos, inverto a história, e fujo da realidade artificial que me inventaram. Descubro então, a espontaneidade do meu sorriso, quando saio airosamente pela porta principal dos meus sonhos e vou ao teu encontro...

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

As noites gritam-me o teu nome


A noite hoje gritou-me o teu nome cruelmente aos ouvidos.

Eu torcia-me, febril, espasmódica, e nos dedos apertava os teus, imaginários.

Ouviste o meu grito ecoar no teu silêncio?

Devias dormir, amor, solto como um anjo, tu que és tão isento de culpas.

Já te disse que te vou conspurcar toda a inocência? Que te vou apertar nos meus braços e apagar de ti os anos de solidão?

Devo ter dito quando gemo o teu nome. Ou talvez não tenha dito. Talvez apenas tenha sonhado.

Às vezes liberto mensagens nas nuvens e aguardo que elas te as entreguem. As nuvens são boas mensageiras, disse-me um dia uma ninfa que passou apressada por aqui.

E eu acreditei.

Então murmuro-lhes poemas e em seguida escrevo o teu nome no baço da janela e aguardo que nos meus sonhos venhas e me digas "ouvi-te... dizias que precisavas de mim. estou aqui."

Mas os meus sonhos são sempre dessassogados, amor.

São sempre amargos.

São restos, são sementes da intensa tortura de ser eu durante anos a fio (agir de acordo com o silêncio nunca é fácil).

Fecho os olhos e imagino o teu rosto, o teu sorriso sempre tão quente, os teus braços a estreitarem-me junto ao teu peito enquanto com os dedos me passeias os cabelos.

És só tu amor, que me acalmas a dor, que me limpas o rosto suado, que te inclinas e me dás água enquanto seguro o copo tremente.

E me murmuras: "estou aqui...amo-te..". Quase sem voz. Apenas suaves carícias dos lábios (existem palavras que são carícias que a língua faz e perpetua).

É o teu nome que grito silenciosamente nestas noites em que a dor se espalha por mim. Quando agarro os lençóis desesperada é o teu rosto que desenho para me serenar.

Depois adormeço. Embalada na tua presença. Adormeço com a respiração alterada, o corpo cansado das lutas nocturnas.

De manhã quando ouço a tua voz doce, quente, serena a acariciar-me a alma digo jovialmente: "sim amor está tudo bem. sinto saudades tuas."As noites são só das nossas almas. Não quero falar delas quando o Sol se levanta. Parecem demasiado irreais.


As noites, amor... gritam-me o teu nome cruelmente aos ouvidos.